A Urgência de Ser

Uma Análise da Escrita Autobiográfica em
Todos os Cacho
rros são Azuis e Hospício é Deus



[Foto original de Maria Dulce de Souza Leão]

1 INTRODUÇÃO

O presente trabalho tem por objetivo analisar a escrita autobiográfica nos livros Todos os cachorros são azuis, de Rodrigo de Souza Leão e Hospício é Deus, de Maura Lopes Cançado, buscando também as motivações para o uso dessa escrita.

Em nossa análise, no capítulo inicial, faremos uma breve abordagem biográfica dos autores, para nos auxiliar na construção do espaço biográfico de ambos. A coleta de dados biográficos será efetuada em sites, entrevistas e trabalhos de pesquisa relacionados aos autores. Para o apoio teórico desse capítulo inicial, usaremos o livro O espaço biográfico: dilemas da subjetividade contemporânea, da escritora argentina Leonor Arfuch, lançado no Brasil em 2010.

Para a contextualização dos dois autores, no primeiro capítulo, inserimos também um breve estudo da esquizofrenia, destacando o da psiquiatra brasileira Nise da Silveira, que desenvolveu um importante trabalho de psicoterapia no hospital onde Maura Lopes Cançado esteve internada. Em especial, interessa-nos em Nise da Silveira, a sua importante defesa da humanização dos doentes, reivindicada por Rodrigo e Maura em seus relatos.

Em nosso segundo capítulo, trataremos de analisar em separado a escrita autobiográfica em ambas as narrativas escolhidas para o trabalho. Para nossa análise, nos apoiaremos em diversos teóricos, destacando Philippe Lejeune e seu ensaio O Pacto autobiográfico, visando justamente o confronto da autobiografia com a escrita autobiográfica.

Em nosso terceiro e último capítulo, buscaremos as motivações da escrita autobiográfica e seus desdobramentos em Hospício é Deus e Todos os cachorros são azuis,  apoiando-nos em diversos teóricos, com destaque para Wander Melo Miranda e Luis Costa Lima. Buscaremos, também, o confronto entre a escrita dos autores estudados.

Esperamos com nosso trabalho analisar a urgência dos autores em narrar experiências autobiográficas.

 

2 O ESPAÇO BIOGRÁFICO

 

Algumas décadas separam Todos os cachorros são azuis e Hospício é Deus, e encontramos muitas diferenças na vida dos dois autores analisados. Para melhor avaliar a questão autobiográfica nas obras de Rodrigo Souza Leão e Maura Lopes Cançado, foi necessário traçar uma breve biografia de cada um deles, que nos servisse de apoio na elaboração do seu espaço biográfico. Como tratado por Leonor Arfuch, a busca por material biográfico não se dá somente na documentação propriamente dita, portanto, nos apoiamos em novas mídias para construir um perfil biográfico dos autores escolhidos. No caso de Rodrigo de Souza Leão, usamos algumas de suas entrevistas para compor nossa análise, por acreditar na grande relevância do gênero, algo também destacado por Arfuch em seu livro:

Como gênero biográfico, mesmo não sendo considerada habitualmente entre os “canônicos”, que apresentam vidas diversamente exemplificadoras, por excelência ou defeito, a entrevista é também de educação, aspecto modélico por antonomásia. O “retrato” que a entrevista brinda irá, então, para além de si mesmo, dos detalhes admirativos e identificatórios, em direção a uma conclusão suscetível de ser apropriada em termos de aprendizagem. Falando da vida ou mostrando-se viver, o entrevistado, no jogo dialético com seu entrevistador, contribuirá sempre, mesmo sem se propor, para “o acervo” comum (ARFUCH, 2010, p. 153).

O escritor Rodrigo de Souza Leão nasceu no Rio de Janeiro, em 4 de novembro de 1965. Teve uma vida considerada normal até a juventude, quando se manifestaram os primeiros sintomas de sua esquizofrenia. A internet era um veículo poderoso para o escritor, muito recluso em razão de sua doença. Ele colaborou em diversas revistas eletrônicas, além de possuir um blogue, mantido até as vésperas da sua morte, por parada cardíaca, em 2 de julho de 2009. Em Lowcura, seu blogue, Rodrigo misturava o caráter ficcional de sua prosa e poesia com sua vida pessoal. O espaço servia para publicação de seus poemas, trechos de seus livros e resenhas sobre músicas que ouvia e livros que lia. Além disso, misturado ao caráter ficcional do blogue, Rodrigo postava fotos da família, à qual fazia constantes declarações de amor, e divulgava suas pinturas, outro hobby muito apreciado pelo autor.

Em 2008 o autor publicou Todos os cachorros são azuis, livro em que faz alusão a umas de suas internações em razão da esquizofrenia. Em 2009, o livro ficou entre os finalistas do Prêmio Portugal Telecom. Após sua morte, em 2010, foi lançado o livro póstumo Me roubaram uns dias contados e houve o relançamento de Todos os cachorros são azuis.

Desde as primeiras manifestações da sua esquizofrenia, Rodrigo passou por três internações, a última, quando morreu. Ao tomar conhecimento de que a autora Glória Perez teria um personagem esquizofrênico em sua próxima novela, resolveu enviar à autora um exemplar de Todos os cachorros são azuis. Na estreia da novela Caminho das Índias, constatou que Tarso, o personagem esquizofrênico, acreditava que tinham introduzido um chip no seu cérebro. Rodrigo ficou furioso e escreveu uma carta à autora, acusando-a de plágio. Não adiantaram os esforços para explicar a Rodrigo que um chip no cérebro era um delírio comum da esquizofrenia, pois a doença causa paranoias tais como: ter um chip no cérebro, estar sendo perseguido pela Máfia, dentre outros muitos casos, que são elementos persecutórios da doença. O autor prosseguiu muito impressionado com a novela. Após ver uma das cenas de surto do personagem, em que ele tenta matar o namorado da irmã, Rodrigo passou a temer cometer o mesmo ato contra seu irmão, com quem dividia o quarto. Assustado, pediu para ser internado. Foi sua última internação, pois, uma semana depois, ele veio a morrer por parada cardíaca. Existem especulações de que o autor teria provocado a própria morte com uma ingestão excessiva de remédios, mas a resposta Rodrigo levou com ele.

A outra autora a ser analisada possui uma biografia bem mais polêmica. Maura Lopes Cançado nasceu em 27 de janeiro de 1929, no município de São Gonçalo de Abaté, no Alto São Francisco, em Minas Gerais. O pai de Maura, José Lopes Cançado, era um importante fazendeiro na região. Parte da infância Maura passou na região, como ela mesma narra em Hospício é Deus, indo mais tarde cursar o primário em Patos de Minas.

O ginásio foi cursado em colégio de elite da época, Sacré-Coeur de Marie, em Belo Horizonte. Aos quatorze anos, Maura decidiu tirar brevê de aviadora, quando começou um romance com um dos companheiros de curso, com quem veio a se casar e ter um filho. Mas o casamento terminou um ano depois. Na mesma época ocorreu também a morte do pai de Maura. Ela, então, tentou retomar o curso de aviação, mas não conseguiu. Tentou também retomar os estudos, mas não foi aceita, em razão de sua condição de mulher separada. Continuou em Belo Horizonte, vivendo uma vida de excessos com a elite da época. As dificuldades e a vida vazia a levaram à primeira internação na Casa de Saúde Santa Maria, em 1949.

Depois de gastar parte da herança do pai e cansada da vida de excessos em Belo Horizonte, Maura resolveu viver no Rio de Janeiro e escrever. Durante a década de 1950, trabalhou no Ministério da Educação, onde conviveu com Vera Brant, então educadora, com quem posteriormente trocou cartas durante suas internações.

Trabalhou também no Jornal do Brasil, colaborando com seus contos para o Suplemento Dominical. Durante essa época, conviveu com diversos intelectuais importantes. Mas foi com Reynaldo Jardim, editor e criador do Suplemento, e com Carlos Heitor Cony que Maura parece ter mantido uma relação mais estreita. Cony cita, em artigo publicado pela Academia Brasileira de Letras, sua relação com Maura e um pouco da trajetória da autora no Suplemento Dominical:

Naqueles anos, eu também colaborava no “SDJB” e freqüentava o andar ocupado pelo suplemento, cuja fauna está toda citada nos livros de Maura: Reynaldo Jardim, Ferreira Gullar, Assis Brasil, Mário Faustino, José Guilherme Merquior, Carlos Fernando Fortes Almeida, José Louzeiro, Alaôr Barbosa, Walmir Ayala, Barreto Borges, Oliveira Bastos e outros que agora não lembro. Reynaldo Jardim foi o criador e era o editor do “SDJB”, recebeu um conto de Maura e ficou entusiasmado, publicou-o na primeira página, na diagramação competente de Amílcar de Castro. Foi o início de uma série de contos magistrais; falou-se em Katherine Mansfield, em Mary McCarthy e, principalmente, em Clarice Lispector, que parecia a influência mais próxima da desconhecida contista. Estava longe de ser uma imitadora. Seu universo era mais denso e concentrado naquilo que, mais tarde, ficamos sabendo ser a sua loucura. Eu havia estreado na literatura em 1958, e Maura me procurou, dizendo que desejava escrever um romance. Tirei o corpo fora, não se ensina ninguém a escrever um romance, um ensaio, uma poesia. Ajudei-a apenas materialmente, dando-lhe uma máquina de escrever. O resultado foi “O Hospício É Deus” (CONY, depoimento, 2007).
Apesar da proximidade com Cony, é com Reynaldo Jardim, editor do Suplemento, que Maura parece ter mantido maior contato durante suas crises. Em Hospício é Deus, Maura cita uma visita do amigo ao hospital psiquiátrico em que estava internada:

“Reynaldo veio ver-me. Encontrou-me na ocupação terapêutica do Centro. Fiquei muito feliz quando virei-me para a janela e me deparei com seu rosto simpático, sorrindo-me do outro lado” (CANÇADO, 1979, p. 57).

Durante a época em que trabalhava no Suplemento, as crises de Maura aumentaram e a levaram à internação no Hospital Psiquiátrico de Engenho de Dentro. Durante a internação, Maura escreveu Hospício é Deus, em que narra a experiência no hospital. No período em que esteve internada, Maura não perdeu a vontade de trabalhar no Suplemento, fato que não se realizou. Reynaldo Jardim a ajudou na publicação do livro.

A vida de Maura acabou ganhando tintas trágicas. Em uma das internações matou uma paciente. Julgada, foi considerada inimputável e condenada a viver em um hospital de custódia. Na falta de hospitais adequados, Maura acabou vivendo entre uma prisão e outra. Em 1980, ganhou liberdade vigiada. Mas voltou às internações, e não escrevia mais. Morreu em 19 de dezembro de 1993, em razão de uma doença pulmonar.

Maura Lopes Cançado e Rodrigo de Souza Leão não entraram para os cânones literários, mas deixaram trabalhos de grande força literária. O que pretendemos com este trabalho monográfico é atualizar a fortuna crítica da obra dos dois autores, nos concentrando nos títulos Hospício é Deus e Todos os cachorros são azuis, analisando ambos pelo perfil autobiográfico.

2.1 A esquizofrenia

Os dois autores que abordamos tinham uma característica comum, além da escrita autobiográfica, ambos, como já citado, eram esquizofrênicos. E embora tenham passados por hospitais psiquiátricos em épocas distintas, trazem para seus relatos opiniões bem similares sobre a experiência nos hospitais, mostrando que a humanização dos doentes mentais muda a passos lentos.

Segundo definições que retiramos do Vocabulário da psicanálise, a esquizofrenia foi um termo cunhado pelo renomado psiquiatra suíço Eugen Bleuler, em 1911, para designar um grupo de psicoses, das quais se distinguem  três  formas que se tornaram clássicas: a hebefrênica, a catatatônica e a paranoide. A esquizofrenia apresenta  formas bem distintas de manifestação:

Clinicamente, a esquizofrenia diversifica-se em formas aparentemente muito dissemelhantes, em que se distinguem habitualmente as seguintes características: a incoerência do pensamento, da ação e da afetividade (designada pelos termos clássicos discordância, dissociação, desagregação), o afastamento da realidade com um dobrar-se sobre si mesmo e predominância de uma vida interior entregue às produções fantasmáticas (autismo), uma atividade delirante  mais ou menos  acentuada e sempre mal sistematizada. Finalmente, o caráter crônico da doença evolui segundo os mais diversos ritmos do sentido de uma deterioração intelectual e afetiva e resulta muitas vezes em estados de feição demencial, é para a maioria dos psiquiatras um traço primacial, sem o qual não se pode diagnosticar esquizofrenia (LAPLANCHE, 1967, p. 214).

No Brasil, podemos destacar entre os estudiosos da esquizofrenia,  a psiquiatra Nise da Silveira, que foi aluna de Carl Jung, também um psiquiatra suíço famoso por seus estudos do inconsciente e até hoje referência na área. Nise da Silveira formou-se em 1927 e, desde então, lutou pela humanização do tratamento das doenças mentais. Ia fortemente contra os tratamentos agressivos da época: a lobotomia, o eletrochoque e a insulinoterapia. Em 1944, começou seu trabalho no Centro Psiquiátrico Nacional Pedro II, onde Maura Lopes Cançado esteve internada. Lá, comandava um centro de terapia ocupacional, onde se concentrava principalmente na pintura. Sua atividade logo tomou grandes dimensões, pois Nise ficou impressionada com a qualidade artística das obras:

Era surpreendente verificar a existência de uma pulsão configuradora de imagens sobrevivendo mesmo quando a personalidade estava desagregada. Apesar de nunca terem pintado antes da doença, muitos dos freqüentadores do atelier, todos esquizofrênicos, manifestavam intensa exaltação da criatividade imaginária, que resultava na produção de pinturas em números incrivelmente abundante, num contraste com a atividade reduzida de seus autores fora do atelier, quando não tinham na mão os pincéis (SILVEIRA, 1981, p. 13).

O trabalho de Nise da Silveira ficou bastante conhecido, resultando em exposições e em grande reconhecimento para sua figura. A psiquiatra reuniu seus estudos com a terapia ocupacional no livro Imagens do inconsciente, onde faz um relato de toda a sua experiência com os doentes:

O atelier de pintura me fez compreender que as principais funções da Terapêutica Ocupacional seria criar oportunidade para que a imagens do inconsciente e seus concomitantes motores encontrassem formas de expressão. Numa segunda etapa viriam as preocupações com a ressocialização (SILVEIRA, 1981, p. 14).

O que aqui nos interessa em particular no trabalho de Nise da Silveira é ressaltar que a esquizofrenia não anula a criatividade de seus doentes, prova disso é produção literária dos autores com os quais escolhemos trabalhar. Maura Lopes Cançado cita o Centro Terapêutico em Hospício é Deus e, embora fosse bastante crítica com o sistema do hospital, gostava de ficar no centro e reconhecia os esforços de Nise da Silveira para humanizar o tratamento das doenças mentais. Rodrigo de Souza Leão, se tivesse sido paciente de Nise, possivelmente figuraria nos estudos de Imagens do inconsciente, pois gostava muito de pintar e divulgou várias de suas pinturas em seu blogue.

 

 

3 OS AUTORES E SUAS OBRAS

As duas narrativas escolhidas para nosso estudo tratam de urgência. A urgência de ser em um ambiente de degradação, a urgência de ser para si e para os outros, e talvez isso justifique o uso da primeira pessoa em ambas as obras. Maura Lopes Cançado e Rodrigo de Souza Leão viveram em épocas diferentes e isso poderia trazer visões contrárias sobre o modo de perceber a vivência nos hospitais psiquiátricos, no entanto as visões de ambos coincidem. O formato escolhido para as duas narrativas é bem diferente. Rodrigo escreve um romance curto. Já Maura faz um relato mais extenso, que inclui uma breve autobiografia, para depois entrar no formato diarista. Apesar das diversidades, nos interessa o “substrato comum”, conforme afirma Antonio Candido, ao analisar as diferentes escritas autobiográficas dos poetas mineiros Murilo Mendes e Carlos Drummond de Andrade, e do escritor, também mineiro, Pedro Nava:

Isto mostra que apesar das diferenças, eles têm um substrato comum, que permite lê-los reversivelmente como recordação ou como invenção, como documento da memória ou como obra criativa, numa espécie de dupla leitura, ou “leitura de dupla entrada”, cuja força, todavia, provém de ela ser simultânea, não alternativa (CANDIDO, 2006, p. 65).

É assim, partindo desse “substrato comum”, que analisaremos Todos os cachorros são azuis e Hospício é Deus, tratando daquilo que, nas duas obras, nos permite discutir a escrita autobiográfica.

3.1 Todos os cachorros são azuis

 

Rodrigo de Souza Leão teve uma vida bem reclusa. Embora isolado em casa por causa de sua doença, mantinha-se em contato com o mundo através da internet. E foi ela, a nossa maior fonte na pesquisa biográfica de Rodrigo, que nos ajudou a desenhar o perfil do autor para a comparação com o narrador de Todos os cachorros são azuis.

A narrativa se constrói de forma híbrida, alternando a narração em primeira e terceira pessoas. Embora a primeira pessoa predomine, muitas vezes há o uso da terceira. O narrador parece conversar com ele mesmo, como num duplo. Ou talvez quádruplo, considerando os dois amigos imaginários do personagem principal, Rimbaud e Baudelaire.

Em Todos os cachorros são azuis tudo começa com o protagonista engolindo um chip, que será o detonador de uma crise esquizofrênica, culminando com a internação no hospício. O chip no cérebro é um viés de paranoias que a esquizofrenia deflagra. Rodrigo também acreditou ter um chip no cérebro. O chip é o que provoca a crise, o que gera a mania de perseguição, a sensação de estar sendo controlado por algo superior:

Engoli um chip ontem. Danei-me a falar sobre o sistema que me cerca. Havia um eletrodo em minha testa, não sei se engoli o eletrodo também junto com o chip. Os cavalos estavam galopando. Menos o cavalo-marinho que nadava no aquário (LEÃO, 2008, p. 13).

Apesar de a narrativa começar com o caso do tal chip, a deflagração dos sintomas da esquizofrenia no personagem começou bem antes, conforme Leão (2009, p. 14), na adolescência: “Ela diz que tudo começou há uns dez anos, quando eu achei que havia engolido um grilo”.

O narrador de Todos os cachorros são azuis joga o leitor dentro de um turbilhão. Por que não dizer que o leitor também engole um chip e passa a ser controlado pelo autor? E não é próprio da escrita autobiográfica, segundo Lima (2003), em sua análise sobre a autobiografia, “uma tentação de impor ao outro uma versão de si próprio”? O leitor, então, está nas mãos do narrador Rodrigo, esperando pequenos fragmentos que possam constituir a identidade entre autor/narrador.

O que encontramos na sequência do caso do chip é uma alternância constante entre passado e presente, entremeados pelo caso da internação do principal personagem, longe do que se espera de uma autobiografia tradicional. Tomando como referência os estudos de Philippe Lejeune sobre autobiografia em O pacto autobiográfico, não podemos afirmar logo de início que a narrativa se encaixaria no formato autobiográfico, pois o texto vertiginoso não nos oferece de pronto a certeza. Não há o pacto autobiográfico segundo os padrões estabelecidos por Lejeune (2008, p. 26): “O pacto autobiográfico é a afirmação no texto, dessa identidade, remetendo em última instância, ao nome do autor escrito na capa do livro”. No início da história o personagem principal não possui um nome. Apenas a escrita em primeira pessoa não poderia ser nossa garantia:

As formas do pacto autobiográfico são muito diversas, mas todas elas manifestam a intenção de honrar sua assinatura. O leitor pode levantar questões quanto à semelhança, mas nunca quanto à identidade. Sabe-se muito bem o quanto cada um de nós preza o próprio nome (LEUJENE, 2008, p. 26).

Em boa parte da leitura de Todos os cachorros são azuis trabalhamos, então, com a questão da semelhança e não da identidade. A questão da semelhança, segundo Lejeune, coloca-se porque podemos encontrar coincidências entre a vida do autor e do personagem. Para que tivéssemos a identidade afirmada, precisaríamos que o nome próprio do autor na capa do livro fosse o mesmo do personagem, estabelecendo então a identidade entre narrador/personagem/autor, fato que não se dá na narrativa. As informações fornecidas sobre o protagonista vêm aos poucos. De início, o chip, que o condena à internação. Já no relato sobre a internação, o protagonista faz uma retrospectiva de sua vida. Lógico que a estrutura usada não é a tradicional, linear e cronológica. A vida do personagem principal vai sendo revelada aos poucos, por meio de pistas.

Um dos símbolos que o personagem principal usa para o resgate de sua infância é um cachorro azul. O cachorro aparece em várias passagens do livro. E, não por coincidência, intitula o livro:

Eu costumava andar com um cachorro azul de pelúcia. Meu cachorro não era gay por ser azul. Só era azul. (…) O bom do cachorro azul é que ele não crescia e não morria. O negócio era cuidar para que ele não envelhecesse. (…) O cachorro azul era minha melhor companhia (LEÃO, 2008, p. 15-17).

O cachorro azul será usado pelo protagonista como símbolo de sua infância. Durante a pesquisa biográfica sobre a vida de Rodrigo de Souza Leão, acabamos esbarrando em uma fotografia do autor, publicada em seu blogue. Nela ele segura um cachorro azul e posa lendo o próprio livro. A fotografia é um interessante jogo de referências. Philippe Lejeune (2008, p. 24) defende que “a autobiografia não comporta graus, é tudo ou nada” e afirma que analisar a escrita autobiográfica não é procurar pistas extratextuais. Mas como ficar impune a essa brincadeira curiosa do autor? Não estaria ele mesmo, com a fotografia, criando um jogo de ficção e realidade? Ou poderíamos ler a fotografia como uma afirmação do autoficcional? Se a própria narrativa de Todos os cachorros são azuis já está sujeita a essa busca por semelhanças, o autor instituiria então uma afirmação da autoficção. Se, conforme Sylvia Molloy (2003, p. 22), “a imagem de si existe como impulso que governa o projeto autobiográfico”, a foto poderia ser a imagem do autor projetada por ele mesmo, num misto de referências autobiográfica e ficcional, numa autofiguração debochada.

Logicamente, essa busca por pistas, incluindo fotografias, só é possível por Rodrigo ser um escritor contemporâneo e que se autopromovia na internet. É o espetáculo de si. E nós, como leitores, não podemos ignorar essa ferramenta pop da escrita, muito discutida pelos teóricos atuais, principalmente porque ajuda na construção da imagem do autor:

Os blogues têm sido uma ferramenta bastante utilizada por escritores, com variadas finalidades: seja como uma espécie de oficina criativa, espaço de experimentação, contato inicial com leitores, divulgação da produção textual para possíveis leitores, seja como lugar de debates, divulgação de publicações e eventos literários, agenda cultural, sem esquecer os procedimentos de autoficcionalização que contribuem para a formação da persona do autor (VIEGAS, 2008, p. 159).

Dentro da análise de Ana Cláudia Viegas, podemos situar Rodrigo. O autor utilizava a ferramenta com bastante assiduidade para divulgar sua poesia, pintura e opiniões sobre literatura e música. E, no ponto que mais nos interessa e onde cabe a comparação com Todos os cachorros são azuis, para se autoficcionalizar e também para se autobiografar. Assim como a citada foto, existem no blogue fotografias da família de Rodrigo. Além disso, o autor publicava trechos de seus livros, inclusive da obra analisada por nós. No livro, constantemente, o narrador faz referências à sua família:

Meu pai aparece num dos dias de visita. Foi ele quem me internou, mas eu não tenho ódio no coração. Gosto deste homem. Ele me dá um beijo (LEÃO, 2008, p. 20).

Em relação à sua família, os sentimentos do protagonista dividem-se entre vergonha e medo:

Ele diz que sairei daqui quando estiver melhor. Movimento-me em sua direção e dou um beijo em sua face. Será o beijo de Judas? Será que trairei meu pai em minha loucura? E se agora viessem dois homens e me crucificassem e me colocassem de cabeça para baixo? Será que a cruz ia aguentar toda a banha? (LEÃO, 2008, p. 20).

O relato será, para o protagonista, uma forma de prestar contas com o passado e consigo. Uma forma de defesa perante o ambiente de abjeção em que vive e cujas únicas cores parecem surgir dos remédios que toma:

Eu já defequei em mim mesmo. Já mijei na cama no primeiro dia do hospício para não sair de onde estava. Esta é uma vida cheia de atos abjetos. Uma vida cheia de medos (LEÃO, 2008, p. 40).

Há no protagonista o desejo da liberdade, o desejo de sair do ambiente de degradação:

Quando vão me tirar daqui, enfermeira?

A primeira liberdade é sair do cubículo. A segunda liberdade é andar pelo hospício. Liberdade, só fora do hospício. Mas a liberdade mesmo não existe. Estou sempre esbarrando em alguém para ser livre. Se houvesse liberdade o mundo seria uma loucura com todo mundo (LEÃO, 2008, p. 23).

Além do desejo de libertação, outro ponto a se destacar no livro é a relação do narrador/protagonista com os amigos imaginários, Baudelaire e Rimbaud. Lógico que não despropositalmente os nomes dos amigos imaginários eram nomes de grandes escritores, e estaria aí um forma do protagonista se inserir entre os grandes cânones literários. Dentro do ambiente do hospício e sem o seu cachorro azul, os amigos imaginários são uma forma de escape para o protagonista:

Vocês devem estar se perguntando se meu relacionamento com Rimbaud era sexual. Apesar de saber que Rimbaud era apaixonado por mim, eu não dava muita corda, para não ferir o coração do poeta. Afinal, eu só queria amizade de homens. Rimbaud se comportava muito bem e jamais saía do meu lado. Era um amigo fiel, um escudeiro. (…) Tinha um outro amigo, o Baudelaire, que aparecia só de vez em quando. Mas com ele era outra história. Nem eu pedindo e ligando para ele, nem deixando recado, Baudelaire atendia. Ele tinha um gênio danado (LEÃO, 2008, p. 35-36).

A solução para a solidão do protagonista, ao recorrer a esses amigos imaginários, é fácil de entender: com o sentimento de abandono pelo mundo, ele mesmo não poderia se abandonar, então, recorre à própria mente, para sobreviver no ambiente inóspito:

O que é a solidão? É viver sem obsessões. Mas na vida às vezes a gente tem que escolher entre esmurrar a ponta de uma faca ou se deixar queimar no fogo (LEÃO, 2008, p. 52).

Além da constante reflexão do protagonista sobre a própria condição, é importante destacar na narrativa as constantes citações do universo pop: novelas, funk, músicas conhecidas e de grandes autores, está tudo reunido num grande mosaico.

O relato da internação no hospício é marcado também por repetições. O protagonista está sempre afirmando que engoliu um chip, que engoliu um grilo. Ele faz, também, uma descrição de alguns doentes do hospital, fixando-se mais intensamente no “Temível Louco”, um doente que se destaca dos demais e por quem o livro ganha ares de trama policial. O assassinato de “Temível Louco” vai agitar o hospício e o protagonista será um dos suspeitos:

Quem matara Temível Louco? Foi você. Ele tinha medo de você. Você vai ser crucificado. Temível tivera um ataque cardíaco. Ninguém viu. Mas tinha um louco que repetia que era eu o culpado. Foram infiltrados entre nós detetives A e detetives B para ver quem matou Temível. Eu era inteligente e já tinha sacado que os polícias estavam infiltrados (LEÃO, 2008, p. 42).

Podemos ler a inclusão desse assassinato no relato, e o fato de o protagonista ser o acusado, como apenas uma manisfestação de delírios persecutórios, fator relacionado à esquizofrenia. E que o próprio autor, Rodrigo, dizia sofrer.

Após a internação o personagem volta para casa. Já em seu lar, não tem mais a companhia dos amigos imaginários Rimbaud e Baudelaire e, de novo, volta-se para seu cachorro azul. O protagonista abandona os amigos ou, fora do hospício, não eram mais necessários? E se deslumbra com a nova liberdade, tão desejada:

Quando cheguei em casa nunca havia ouvido tamanho silêncio no meu quarto. Havia recebido alta há poucas horas. Dessa vez o nosso carro não foi seguido por ninguém. Não via Rimbaud e Baudelaire há alguns dias. Quando se têm companhias tão fortes assim, e se tem uma vida em comum, sentimos falta dos amigos. Meu cachorro azul estava lá, encardido pelo tempo, contando muitas histórias.

Andava pela casa e me sentia um ser livre (LEÃO, 2008, p. 68).

Sua vida convencional, porém, vai durar pouco. Durante um sonho, receberá uma iluminação que o fará criar uma nova seita, o Todog, em que os participantes possuem uma forma especial de se comunicar, como um código ou uma língua especial. A seita, então, ganhará muitos adeptos e ele termina sendo perseguido para acabar com a seita. É preso e, quando finalmente consegue a liberdade, um membro da seita o mata.

É necessário destacar que a liberdade perseguida pelo personagem é sempre impedida por algo externo. Os outros perseguem sua liberdade e ela parece inalcançável, como já citado. E aí nos vem a indagação sobre o depois. O autor, então, responde-nos na única passagem de todo o texto que contém o nome de Rodrigo:

Princilimpimpotus todog todog todog e grilos e eletrodos e casa devastada e cachorro azul e bolo de laranja e policiais B e Lembra-vovó e eu vou pra Paracambi se eu não comer, vou pro caju e Procurador brilhantina e Xuma e agora o agora. Dia D. Hora H. A bomba e seu cogumelo de endorfinas explode em meu corpo baionetado e com a química dos anjos. A ogiva. E depois, Rodrigo? O que fez do depois? Aqui onde as nuvens se encontram, levo sempre um choque maior do que os que levei no hospício (LEÃO, 2008, p. 78).

Teríamos, então, com esse trecho a afirmação do pacto autobiográfico. O nome do personagem e o nome do autor. Não mais a questão da semelhança, mas a questão da identidade afirmada.

3.2 O Hospício é Deus

Hospício é Deus foi escrito por Maura Lopes Cançado durante sua internação no hospital psiquiátrico Gustavo Riedel, em Engenho de Dentro, Rio de Janeiro. No início da narrativa é feita uma breve retrospectiva autobiográfica da vida da autora. Está lá a vida na fazenda onde nasceu, os colégios em que estudou e o tempo que passou com a elite burguesa de Belo Horizonte antes de ela vir morar no Rio. A inclusão de uma breve autobiografia parece uma forma de Maura prestar contas a si mesma, antes de entrar no diário propriamente dito. E é na infância que a narradora/personagem vai buscar as causas da sua loucura:

Não creio ter sido uma criança normal, embora não despertasse suspeitas. Encaravam-me como uma menina caprichosa, mas a verdade é que já era uma candidata aos hospícios onde vim parar (CANÇADO, 1979, p. 17).

Outra questão a ser destacada do início da narrativa é o amor de Maura pelo pai, que vai perpassar toda a narrativa:

Aos quinze anos vi-me com o casamento desfeito, um filho e sem pai, sustentáculo de todos os meus erros — meu grande e único amor (CANÇADO, 1979, p. 24).

É também nesse relato inicial que Maura fala da paixão por leitura e pelo mundo do faz-de-conta. Ela gostava de inventar histórias absurdas:

Possuindo muita imaginação, costumava inventar histórias exóticas a meu respeito. Aos sete anos, estudando numa cidade próxima à fazenda, onde morava minha irmã Didi, mentia para minhas colegas: “— Sou filha de russos, tenho uma irmã chamada Natacha, e um dos meus tios nasceu na China, durante uma viagem dos meus avós” (CANÇADO, 1979, p. 21).

A julgar pelos depoimentos da educadora Vera Brant e de Carlos Heitor Cony, que relatam que a autora contava histórias escabrosas, Maura levou o hábito de inventar histórias absurdas por toda vida. Talvez em razão de sua doença, ou pelo prazer de se autoficcionalizar.

Embora por muitas vezes presa num mundo imaginário para fugir da realidade, Maura não esconde em seu relato seus temores. Dentre eles, o medo da morte e o medo de sua condição de doente mental. O medo da morte está na vida de Maura desde a infância. E com ele o medo de Deus, a entidade com a qual nunca teve uma boa relação. Maura não acreditava em Deus, porque o acreditava impiedoso e capaz de matar:

Amá-lo como, impiedoso e desconhecido, me espionando o dia todo? Ia matar-me quando quisesse, mandar-me para o inferno. Amar a Deus? Deus, meu pai? (…) Minhas relações com Deus foram as piores possíveis — eu não me confessava odiá-lo por medo da sua cólera. Mas a verdade é que fugia-lhe como julgava possível — e jamais o amei. Deus foi o demônio da minha infância (CANÇADO, 1979, p.  20).

É interessante, a partir dessa informação, analisar o título do livro, que é retirado do início das anotações do diário de Maura, na passagem em que ela cita a chegada ao hospício:

Estou de novo aqui, e isto é — Por que não dizer? Dói. Será por isto que venho — Estou no hospício, Deus. E hospício é este branco sem fim, onde nos arrancam o coração a cada instante, trazem-no de volta e o recebemos: trêmulo, exangue — e sempre outro. Hospício são flores frias que se colam em nossas cabeças perdidas em escadarias de mármore antigo, subitamente futuro — como o que não se pode ainda compreender. São mãos longas levando-nos para não sei onde — paradas bruscas, corpos sacudido se elevando incomensuráveis: Hospício é não se sabe o que, porque Hospício é Deus (CANÇADO, 1979, p. 28).

Se hospício é Deus para Maura, podemos concluir que o hospício é a materialização de todos seus temores, uma morte em vida. Um espaço de opressão. E, dualisticamente, ela também coloca o hospício como uma forma de fugir do mundo que a oprimia (1979, p. 28): “o que me trouxe aqui foi a necessidade de fugir para algum lugar, aparentemente fora do mundo”. Maura cita no seu diário a necessidade de proteção. Sentia-se sozinha fora do hospício e lá esperava encontrar algum conforto. O que é uma contradição, visto que relata os horrores do hospício e sua solidão dentro dele. Ao mesmo tempo em que desejava retornar, para buscar um conforto que a sociedade fora dali não lhe oferecia, estava chocada com sua volta ao hospício (1979, p. 30): “Via, como se nada em mim fosse mais que os olhos, recomeçando num pesadelo (voltei, meu Deus, voltei)”. Maura também reflete muito sobre seu estado de doente mental durante todo o livro. A loucura a assombra:

O que me assombra na loucura é a distância — os loucos parecem eternos. Nem as pirâmides do Egito, as múmias milenares, o mausoléu mais gigantesco e antigo, possuem a marca de eternidade que ostenta a loucura (CANÇADO, 1979, p. 26).

É com a consciência da loucura que Maura se coloca em muitas partes do diário:

Sou “Alice no País do Espelho”. Quanta coisa franzida na minha percepção. Até mesmo o ar parece-me contrair-se frenético. É um estado passageiro — mas que me deixa em dúvida: onde está a verdade? E as coisas que toquei, percebi, senti, amei, quando criança? — minha cabeça é um ônibus desenfreado (CANÇADO, 1979, p. 108).

Se a Alice de Lewis Carol entra num mundo surreal e precisa jogar uma partida de xadrez para tornar-se a rainha e, à medida que o jogo se desenrola, encontra-se com várias personagens estranhas, o jogo de Maura está na escrita autobiográfica. Dentro do ambiente amedrontador do hospício e em razão da própria opressão que lhe provocava a loucura, Maura buscaria na sua escrita autobiográfica uma autointerpretação:

A autobiografia, mesmo se limitada a uma pura narração, é sempre uma auto-interpretação, sendo o estilo o índice não só da relação entre aquele que escreve e seu próprio passado, mas também o projeto de uma maneira de dar-se a conhecer o outro (MIRANDA, 1992, p. 30).

Norteados por essa ideia de autointepretação é que lemos Hospício é Deus. Aqui, diferentemente de Todos os cachorros são azuis, o pacto autobiográfico defendido por Lejeune é feito logo no início do livro e podemos perceber a relação de identidade entre Maura autora e Maura personagem e narradora. Não trabalhamos com a questão de semelhança, mas de identidade. A assinatura do nome próprio nos dá essa certeza.

É interessante analisar que Maura dividiu a sua escrita em duas partes: no já citado relato autobiográfico inicial e na escrita diarista. A escrita diarista excluiria, então, a possibilidade de uma autobiografia segundo muitos especialistas:

Por ser uma escrita essencialmente privada, cuja especificidade é o segredo, o diário exclui de antemão o pacto entre o autor e o leitor (MIRANDA, 1992, p. 34).

Mesmo com possível descarte do pacto entre o autor e o leitor, não parece a teoria aplicável ao caso de Maura, pois ela trata, na narrativa autobiográfica inicial, de fazer o pacto com o leitor. Outra questão que nos parece interessante destacar é que Maura parecia imaginar a publicação do diário:

Aqui estou de novo nesta “cidade triste”, e é daqui que escrevo. Não sei se rasgarei estas páginas, se as darei ao médico, se as guardarei para serem lidas mais tarde. Ignoro se tenho algum valor, ainda no sofrimento (CANÇADO, 1979, p. 31).

Em outros momentos, afirma a importância do diário para ela e nega ser ele um relato íntimo:

Meu diário é o que há de mais importante para mim. Levanto-me da cama para escrever a qualquer hora — escrevo páginas e páginas — depois rasgo mais da metade, respeitando apenas, quase sempre, aquelas em que registro fatos ou minhas relações com as pessoas. (…) Será deveras lastimável se esse diário for publicado. Não é absolutamente um diário íntimo, mas tão apenas o diário de uma hospiciada, sem sentir-se com direito a escrever as enormidades que pensa, suas belezas, suas verdades (CANÇADO, 1979, p. 122).

A própria declaração de Maura mostra a ambiguidade de sua escrita. Não parece que o formato diarista almejava o segredo, pelo contrário, parece ter sim a intenção de formar a imagem de Maura e denunciar as barbaridades cometidas contra os doentes mentais (1979, p. 31): “Com o que escrevo, poderia mandar aos ‘que não sabem’ uma mensagem do nosso mundo sombrio”. Maura, às vezes, parece estar se dirigindo a um leitor imaginário:

(…) E o médico que riu, não terá sua psicosezinha? Diriam se me lessem: — O pobrezinho do médico-bonito não riu. Ela tem mania de perseguição. E me acrescentariam mais o rótulo de paranóica (CANÇADO, 1979, p. 40).

E recordando uma citação de Lejeune (2008, p. 23): “O autor não é só uma pessoa. É uma pessoa que escreve e publica”, seríamos inocentes em desconsiderar que a mulher oprimida que escreve um diário durante uma internação psiquiátrica é também a autora Maura Lopes Cançado, dona de uma linguagem hábil. O estado de opressão não mata a autora, mas a revela, ou manifesta nela o desejo de se revelar. Nós, então, imaginaremos Maura a partir do que ela nos oferece em seu texto:

O autor se define como sendo simultaneamente uma pessoa real socialmente responsável e o produtor de um discurso. Para o leitor, que não conhece a pessoa real, embora creia em sua existência, o autor se define como a pessoa capaz de produzir aquele discurso e vai imaginá-lo, então, a partir do que ele produz (LEJEUNE, 2008, p. 23).

A discussão sobre o papel do autor é claramente aplicável à narrativa de Hospício é Deus, mas não se aplicaria tão bem a Todos os cachorros são azuis, pois com Maura, temos a identidade declarada e com o texto de Rodrigo, ficamos com a suposição de que o relato faz parte de uma experiência pessoal do autor.

A escrita diarista de Maura Lopes Cançado parece fugir também do compromisso com o tempo. Maura trabalha muito com a memória. E mais do que o compromisso com os eventos diários, a memória é o que se destaca, entremeada por acontecimentos que marcam sua internação. Maura vai marcando os eventos diários com questões pessoais. No seu diário ela cita a relação que teve com intelectuais na época em que trabalhava no Jornal do Brasil, e em especial com Reynaldo Jardim, editor do Suplemento Dominical do Jornal do Brasil, que prefaciou o seu livro.

Um ponto importante a se destacar é a relação de Maura com Doutor A, médico que a atendeu durante sua internação no hospital. Nessa relação entre médico e paciente o que se estabelece inicialmente é uma postura crítica de Maura. Entretanto, um pouco adiante, o médico é destacado por ela como quem a mantém sã no hospital. Ela se mostra apaixonada, embora não perca a postura crítica. Em uma das partes do diário de Maura, num gesto de ousadia, confessa sua paixão por Doutor A. O médico não lhe corresponde e vai confrontá-la com o amor que ela sentia pelo pai:

— Papai?

— Seu pai. Você só ama ainda a seu pai, buscando-o em todos os homens, principalmente se a protegem e você os admira. Foi o que aconteceu com R.

— Mentira (comecei a chorar).

— Verdade. E passa a odiar qualquer homem que não ame “apenas” como seu pai a amava. Para você é como um incesto, Maura (CANÇADO,1979, p. 98).

Maura não gosta da atitude do médico, temia que a análise a fizesse perder a capacidade de escrever:

Meus problemas são inúmeros e um dos mais graves é este: medo de me deixar analisar e não conseguir mais escrever. Tenho ouvido falar a esse respeito. Van Gogh, Gauguin, Rimbaud, Dostoievski e outros tantos não foram jamais analisados. Mas como eu seria feliz se me transformasse numa criatura normal e conseguisse um marido. (CANÇADO, 1979, p. 98).

O trecho citado mostra que Maura valorizava muito seu ofício de escritora. Era para ela uma forma importante de se expressar, mesmo disputando espaço com a sua loucura e até fazendo parte dela. É interessante notar que no trecho destacado acima Maura se compara com grandes artistas que de alguma forma tiveram relação com a loucura. Uma das grandes decepções de Maura narrada no diário é não conseguir voltar a trabalhar no Jornal do Brasil, onde exercia seu ofício de escritora. Quando estava tudo acertado para ela voltar ao jornal, Reynaldo Jardim voltou atrás e essa atitude provocou profundo desgosto em Maura.

O diário de Maura não se encerra com sua saída do hospício, o último relato data de 7 de março de 1960. Como Maura nomeia seu diário como o primeiro, fica a dúvida se haveria mais relatos em outro diário. Em algumas pesquisas, lemos que os manuscritos foram perdidos, em outras, que o segundo diário nunca existiu. O que podemos concluir da escrita de Maura é que ela é híbrida. Assim como a de Rodrigo, parece-nos que a escrita autobiográfica conduz à autoficcionalização.

 

 

4 A MOTIVAÇÃO DA ESCRITA AUTOBIOGRÁFICA

Maura Lopes Cançado e Rodrigo de Souza Leão trouxeram para suas narrativas a urgência de contar sobre o mundo que os cercava. Em comum, podemos ver nas duas escritas a marca da doença mental levada para a literatura.

Desde que o Ocidente converteu a individualidade em valor, a impaciência de viver aumentou a impaciência de contar e a narrativa real ou fingida da própria vida se tomou como um tipo de história, mais confiável que o enredo das novelas (LIMA, 2007, p. 455).

Dentro de nossa análise, podemos ler a impaciência de Maura e Rodrigo não como a de viver, mas a de contar. Para ambos era preciso narrar, e para isso se valeram da escrita autobiográfica, porque há pressa em manifestar a individualidade. Se para a sociedade é um senso comum considerar que todos os loucos são iguais, para eles se faz necessário o reforço da individualidade.

Parece não haver motivo suficiente para uma autobiografia, se não houver uma intervenção, na existência anterior do individuo, de uma mudança ou transformação radical que a impulsione ou a justifique (MIRANDA, 1992, p. 30).

Nesse trecho, buscamos a interpretação para a motivação dos dois autores pelo apelo à escrita autobiográfica. Rodrigo de Souza Leão sofreu uma grande mudança em sua vida quando foi diagnosticado com esquizofrenia. E teria sido uma internação em que foi preciso usar força policial para levá-lo o que parece tê-lo motivado a começar a escrever Todos os cachorros são azuis:

Cheguei ao Pinel e minha família optou por me internar numa clínica particular. O hospício que havia ficado internado pela primeira vez em 1989. Fiquei internado por vinte dias. Quando voltei a minha casa, dois dias depois, no meu quarto escurecido por doses de Litrisam, comecei a escrever Todos os cachorros… (KRAPP, entrevista, 2009).

O trecho acima, retirado do site que reúne a fortuna crítica sobre Rodrigo, nos mostra um pouco da motivação do autor para o uso da escrita autobiográfica em Todos os cachorros são azuis. É lógico que nem tudo no livro é autobiográfico, mas, sendo a narrativa entrecortada e não-linear, quase um delírio, Rodrigo parece ter dado à sua escrita o seu maior elemento autobiográfico, a esquizofrenia. A doença de Rodrigo é classificada como um dobrar-se em si mesmo, e essa leitura pode ser feita em Todos os cachorros são azuis: o personagem principal dobra-se em muitos, divide-se em amigos imaginários e a própria narrativa dobra-se em si, intercalando tempos e fatos ficcionais à vida pessoal de Rodrigo. Na mesma entrevista citada, quando questionado se usou em Todos os cachorros são azuis a inspiração de seus próprios delírios, Rodrigo responde:

A esquizofrenia tem diversos níveis. Cada louco é um louco. Na minha experiência não tive muitas alucinações auditivas e visuais. Mas vivo com sensações persecutórias. Acho que estão me perseguindo e que vou ser assassinado. Convenhamos que isso não traz tranqüilidade. O que tenho é atualmente chamado pelos psiquiatras de distúrbio delirante. Para o livro coloquei um protagonista que via e ouvia alucinações. Aproveitei experiências do meu irmão Bruno. Ele é bipolar e já teve uma psicose séria. Só voltou a si graças ao eletro-choque. Ficou abobado, mas agora está normal. Misturei também as duas internações que existiram na minha vida (KRAPP, entrevista, 2009).

A busca de elementos extratextuais para encontrar a motivação da escrita autobiográfica de Todos os cachorros são azuis não é necessária no relato de Maura Lopes Cançado, porque um dos elementos que perpassam Hospício é Deus é sua urgência em relatar sua condição (1979, p. 156): “Só sou autêntica quando escrevo”. Residiria na busca por autenticidade a necessidade de escrever na primeira pessoa, só a identidade declarada mostraria a veracidade de escrita de Maura Lopes Cançado para os outros. Não podemos esquecer, entretanto, que a escrita diarista não compõe uma autobiografia e Maura, assim como Rodrigo, usaria a escrita autobiográfica para dar forma ao seu relato.

O diário, considerado um gênero de escrita íntima, é feito de dualidades. Muitas vezes, em seu diário, Maura nega ser ele um relato íntimo, e afirma estar apenas narrando fatos. Em outras passagens Maura também nega uma das maiores características do diário, que seria o compromisso com o tempo:

Um domingo qualquer — não sei a data, mas é domingo. Amanhã, se me lembrar corrigirei todas as datas erradas. Ou, eliminarei todas as datas. Não tem importância: “Todos os cabelos são mais ou menos verdes, mais ou menos verdes”, segundo Sainte-Beuve (CANÇADO, 1979, p. 169).

Partindo do trecho destacado, contrapomos a reflexão de Lejeune sobre o diário:

Há um abismo entre o diário tal qual é lido (por um outro, ou até, depois, por si mesmo). O diário, que muitas vezes se apresenta como uma luta contra o tempo (fixar o presente etc. — preservar a memória), se fundamenta de fato na abdicação prévia diante do tempo (atomizado, despedaçado, reduzido ao instante). Há, na verdade, muitas concepções possíveis de tempo. E diário reflete (mas só depois, na leitura) tanto a mais ingênua (nem dominada nem desejada) adesão ao presente, quanto uma certa abdicação (LEJEUNE, 2005, p. 285).

Maura, mesmo fugindo do compromisso com o tempo, estaria, de qualquer forma, presa a ele.

 

5 CONCLUSÃO

Em razão do estudo sobre a escrita autobiográfica e suas motivações em Todos os Cachorros são azuis e Hospício é Deus, norteamos nosso projeto. Para a análise dessa escrita, julgamos necessário contrapô-la ao que seria uma autobiografia propriamente dita, usando assim a análise do pacto autobiográfico defendido pelo teórico Phillip Lejeune, dentre outros teóricos citados na introdução desta pesquisa, que nos serviram de sustentação.

Para a análise da escrita autobiográfica de Todos os cachorros são azuis, fizemos uma análise da narrativa e buscamos elementos extratextuais para melhor avaliar a escrita autobiográfica de Rodrigo de Souza Leão. Com isso, investigamos o blogue mantido pelo autor e fizemos um estudo das entrevistas que ele concedeu, por acreditar na relevância do gênero para a construção do seu espaço biográfico. Concluímos em nossa pesquisa que o escritor usa a escrita de si para levar para Todos os cachorros são azuis um pouco da sua experiência com internações psiquiátricas. O que vemos no livro é um misto de experiência autobiográfica com autoficcionalização, resultando numa narrativa híbrida. O próprio autor expôs isso em uma das entrevistas que usamos para nossa pesquisa. A sua escrita seria uma forma de vencer as dificuldades da esquizofrenia, mas ao mesmo tempo, levar a sua doença para seu fazer literário, imprimindo inclusive em sua narrativa entrecortada um quê alucinatório. Lê-lo seria experimentar um pouco da esquizofrenia.

Outro elemento a ser destacado na pesquisa sobre Rodrigo é que a sua escrita autobiográfica e jogo de autoficionalização se estenderia para além do limites do livro. O autor também mantinha esse jogo no blogue que alimentava na internet. Lá, num misto de referências, brincava com a imagem do Rodrigo autor e do Rodrigo personagem, criando fronteiras tênues entre o autobiográfico e o ficcional.

Já na análise da escrita autobiográfica de Maura Lopes Cançado o processo foi um pouco diferente, acreditamos que no relato autobiográfico inicial de Hospício é Deus, Maura faz o pacto autobiográfico, o que nos permite ler a narrativa com a identidade afirmada de Maura autora/personagem/narradorra. Partindo dessa questão, nos concentramos mais nos elementos do texto, fazendo pouco uso de elementos extratextuais. O formato usado pela autora também se aproximaria mais do formato convencional de uma autobiografia, se não o é de todo, é porque Maura transformou seu livro num híbrido, misturando autobiografia com escrita diarista.

Na escrita diarista Maura se perde em datas, mas deixa transparecer sua necessidade de falar sobre si, numa autoanálise que serviria para ela como uma forma de sobreviver perante o ambiente de abjeção do hospício. Uma escrita em terceira pessoa não serviria ao relato da autora, mesmo havendo a negação em várias partes de seu diário da escrita íntima, para a autora seu diário seria apenas um relato do que via no hospício. Maura também nega em sua escrita diarista estar presa ao tempo, fato comum quando se trata de tal escrita, mas em nossa análise, vemos que o fato pode ser relativizado, pois a escrita diarista é sempre uma escrita no presente do autor, mantendo-a assim presa ao tempo.

No confronto das motivações de ambos os autores para o uso da escrita autobiográfica, percebemos que o elemento comum seria a urgência de ser, manifestar a individualidade. Se ambos se encontravam num ambiente degenerado e por vezes se consideravam degradados em razão da doença mental, a escrita de si seria uma forma de sobressair a tal questão, manifestando e afirmando sua individualidade. Mas o processo de escrita autobiográfica não exclui o ficcional, que tanto Maura quanto Rodrigo inserem em suas narrativas, diferenciado-se assim das autobiografias.

 

 

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